A cidade é diferente sob sua ótica, você vive no centro e da tua janela tudo parece óbvio demais. O mesmo Largo da Ordem, intacto e decadente, com as mesmas pessoas de sempre, as quais um dia você lembrará como vultos de uma época despedaçada. A metrópole província com todos os seus encantos já conhecidos em nada mais te atrai, de repente ela se tornou pequena. E você foge, mas fugindo nada encontrará, falta a si mesma e si mesma é inatingível. Haverá ausência aqui. E em qualquer lugar.
Preste atenção nesses foliões anônimos encobertos pelo cinza do céu e nem por isso menos felizes, talvez tudo aquilo seja o que conheceram de mais intenso em vida, a prova irrefutável de quem espera a semana toda para encontrar a felicidade no domingo, o dia da semana que não acaba para eles que festejam o esplendor eterno, e para nós, espectadores entediados da futilidade carnavalesca, ainda que complacentes com ela.
Do meu quarto você confessa o que te pesa. Olhemos uma última vez pela janela, que agora nos mostra o mundo sob outro prisma.
Você me confessa a vida, eu me tranco no banheiro. Chorei por descobrir que amor é sacrifício. Não pela dor imediata e pela culpa irremediável que dele provém, mas por nunca ter renunciado em prol de algo maior que compensasse as perdas e que com elas alimentasse a si mesmo. Talvez não tivesse amor o bastante, ou ainda não tivesse compreendido que sacrifício é uma consequência do mesmo. Há tempos você sofre com espinhas que insistem em explodir da sua face, mas aprendeu que minancora em excesso queima e que só o tempo resolve. Agora é diferente. De dentro de você emerge muito mais do que acne, emerge vida. Se você renunciasse, renunciaria a si mesma. E renunciou. Dois meses, uma vida bizarra e espontânea se movendo em você, te sentindo, partilhando e consumindo, colocando a prova a fragilidade do teu corpo, cerrado em si mesmo, gritando por si e por mais um, que agora ocupa teu espaço. O gênesis diz que a dor do parto foi castigo divino, a pena que vai cumprir pelos deletérios de teus antescedentes será a do teu corpo aprisionado pela espécie, pagará pelos crimes da humanidade e o legado ficará aos critérios dela mesma. Todas as mudanças serão para abrigar o inquilino, superprotegido dentro um mundo chamado placenta, o refúgio por nós concedido á ele, ou a á ela, que um dia talvez descubra ares de tabaco, ainda que contra o julgamento intransigente do pai que condenou a si mesmo. Tomara que fume por gosto, não por vício.Você ficará gorda, meu bem, mas essa é uma realidade irremediável da vida, e tudo que concebe como si mesma agora já não existirá senão como uma vaga lembrança. A efemeridade de quem um dia foi atriz de peças desprovidas de qualquer propósito, a nostalgia de quem desenhava nus.
Amor não completa nem preenche, alimenta. O vir a ser vai beber da sua morbidez amorosa. Ao sair do hospital, eu sei, haverá uma fotografia para a eternidade. Você, com um vestido branco que faz teu corpo flutuar me abraçaria em sua fragilidade de quem concebe a vida, eu seguraria ela ( ou ele ) em meus braços e assumiria ali mesmo uma nova identidade, a qual teria de reinventar uma assinatura diariamente.
Mas antes, deite aqui nesse divã, quero memorizar pra sempre essa feição que assumiu agora. Pálida, não sabe o que vai te suceder, apenas está cônscia de que você mesma, na maneira como se encontra agora, transcederá. E quando o sol finalmente raiar, tudo ficará positivamente mórbido [Júpiter maçã ]
26 de janeiro de 2010
20 de janeiro de 2010
Obviedade.
Você andava esquisito, jogando os pés pra frente. E orgulhoso foi desbravar a cidade, venceu o céu cinza e a morbidez do teu quarto. Consciente da vida, acendeu um cigarro.
Um dia comentou comigo que as vezes algo estranho te acometia: ao andar, subitamente se dava conta do que fazia, da sua imersão em sentir, em sorrir com o canto da boca um sorriso discreto. Quando se percebia, desatinava. E descompassava. O andar se perdia e os pés adquiriam vida própria. Eu te entendo. Dia desses andava por aí absorta e ao atravessar a São Francisco me avistei num espelho. Maldita consciência de ser. Só poderia me enxergar em estado de graça porque da minha desgraça eu conheço bem, amigo Gregor. Mas a minha imersão é solitária, que não me acordem por favor. Gostaria de ter a pureza de não estar conscio de coisa alguma, e como você, acender um cigarro.
Mas veja só que cena bonita, não hesite em contemplar. Um velho bêbado chingando o garçom, que dele ri, junto aos outros clientes. Ele gesticula, balbucia e o seu falar é ininteligível. Nós dois parados na rua a apreciar toda a desgraça. Não demora a passar uma moça loura de saia colorida com babados esvoaçantes, ela adentra no nosso cenário virando a esquina, e cheia de vida, toma a rua para si. A beleza contrastando com miséria, por um segundo o mundo ficou estático, mas meus olhos não fotografam Gregor, e só te resta o consolo da efemeridade mais intensa que uma vida toda.
Ontem, caminhando na feira, conheci um homem que se denominava poeta, o Batista. Achei que estivesse bêbado, mas era poeta mesmo. Mas nós bem sabemos que poesia é coisa rara e essas merdas autointituladas artistas, acho que eles deveriam beber água sanitária, se quer saber o que acho. Qualquer obra de arte transcende. Arte não é incorporação, é transcedência, e é por isso que todos eles são escravos da vida, tanto quanto um anônimo que cambaleia em alguma sarjeta e culpa á Deus por sua desgraça. Tenho um amigo que escreve como o Neruda, sensualíssimo na sua pureza de virgem. Talvez você por não conhecê-lo, aprecie seus poemas, mas eu sei que ele não dormiu com ningúém nem ontem nem nunca, Gregor. A proximidade me revela toda a pobreza daquelas mulheres enroladas em lençóis brancos.
Nos sentamos no Cavalo Babão. Você diz que eu vivo, mas que ainda assim me falta vida, aquela leveza de quem dobra a esquina absorta no nada. De consolo, que sou bonita e que não deveria me culpar tanto ao tornar tudo mais complexo. Afirmar que você é um arqui filho da puta é eufemismo, Gregor. Aforismos não apaziguam os fatos.
Se prestar atenção, verá que lá vem a nossa moça da saia de babados esvoaçantes. Ela já não nos surpreende como outrora. Sem tragédias para figurar, se torna uma anônima de vida ausente, carregando uma sacola de pão.
Um dia comentou comigo que as vezes algo estranho te acometia: ao andar, subitamente se dava conta do que fazia, da sua imersão em sentir, em sorrir com o canto da boca um sorriso discreto. Quando se percebia, desatinava. E descompassava. O andar se perdia e os pés adquiriam vida própria. Eu te entendo. Dia desses andava por aí absorta e ao atravessar a São Francisco me avistei num espelho. Maldita consciência de ser. Só poderia me enxergar em estado de graça porque da minha desgraça eu conheço bem, amigo Gregor. Mas a minha imersão é solitária, que não me acordem por favor. Gostaria de ter a pureza de não estar conscio de coisa alguma, e como você, acender um cigarro.
Mas veja só que cena bonita, não hesite em contemplar. Um velho bêbado chingando o garçom, que dele ri, junto aos outros clientes. Ele gesticula, balbucia e o seu falar é ininteligível. Nós dois parados na rua a apreciar toda a desgraça. Não demora a passar uma moça loura de saia colorida com babados esvoaçantes, ela adentra no nosso cenário virando a esquina, e cheia de vida, toma a rua para si. A beleza contrastando com miséria, por um segundo o mundo ficou estático, mas meus olhos não fotografam Gregor, e só te resta o consolo da efemeridade mais intensa que uma vida toda.
Ontem, caminhando na feira, conheci um homem que se denominava poeta, o Batista. Achei que estivesse bêbado, mas era poeta mesmo. Mas nós bem sabemos que poesia é coisa rara e essas merdas autointituladas artistas, acho que eles deveriam beber água sanitária, se quer saber o que acho. Qualquer obra de arte transcende. Arte não é incorporação, é transcedência, e é por isso que todos eles são escravos da vida, tanto quanto um anônimo que cambaleia em alguma sarjeta e culpa á Deus por sua desgraça. Tenho um amigo que escreve como o Neruda, sensualíssimo na sua pureza de virgem. Talvez você por não conhecê-lo, aprecie seus poemas, mas eu sei que ele não dormiu com ningúém nem ontem nem nunca, Gregor. A proximidade me revela toda a pobreza daquelas mulheres enroladas em lençóis brancos.
Nos sentamos no Cavalo Babão. Você diz que eu vivo, mas que ainda assim me falta vida, aquela leveza de quem dobra a esquina absorta no nada. De consolo, que sou bonita e que não deveria me culpar tanto ao tornar tudo mais complexo. Afirmar que você é um arqui filho da puta é eufemismo, Gregor. Aforismos não apaziguam os fatos.
Se prestar atenção, verá que lá vem a nossa moça da saia de babados esvoaçantes. Ela já não nos surpreende como outrora. Sem tragédias para figurar, se torna uma anônima de vida ausente, carregando uma sacola de pão.
15 de janeiro de 2010
Pensamento simbólico.
Agora entendo porque você apreciava tanto suas clavículas. Elas emergem voluntariamente da fina superfície epitelial que as encobre, são fruto de uma condição. Sim, porque as minhas clavículas não se insinuam como as suas, assim como a minha coluna vertebral, ela é omissa e não aparenta uma sequência gigante de ervilhas que emanam das costas. Talvez esse apreço pelos ossos se dê pelo fato deles emergirem de dentro, independentes á sua vontade. Devia ser por isso que você seguia o percurso das veias a partir dos meus pulsos com a ponta dos dedos, e apertava levemente aquelas que brotavam do pé nos dias quentes.
Entender a relação que você tinha com o seu corpo foi fundamental para a compreensão das suas esculturas que permaneceram pela casa, que na verdade, não eram suas. Era você, na sua fragilidade exposta de quem não sabe usar de subterfúgios, desde sempre.
A sua memória é ruim demais pra que se lembre disso, mas nas aulas de modelagem não nos comunicávamos verbalmente, mas artisticamente. Era soberbo.
A escolha da argila porque é um produto da terra e o que advém dela pode se prolongar ao infinito. É um sentimento puro, não uma continuidade, é antes de mais nada o resultado da nossa inconstância. O que foi uma coluna vertebral ontem pode ser um zíper amanhã, e daí que surgiram suas mulheres lacradas. Seus corpos cerrados em si mesmos exprimiam dor o bastante pra que tivessem um rosto. Uma série de mulheres anônimas condicionadas a expressarem não expressando. Gostaria de poder conferir uma identidade pecualiar a cada uma delas, cada qual uma projeção do seu prisma.
A sua primeira escultura foi infantil, mas nunca óbvia. Uma face quase humana seguida por raízes grossas que afinavam em direção a cabeça e apareciam discretamente na fronte.
Passei a reparar nas árvores dando ênfase nas raízes, aquelas mesmas que garantiam um equilíbrio instável, sustentavam em conjunto ao mesmo tempo em que se sobrepunham confusamente umas as outras. O caos estava no princípio, na base. Ou talvez fossem apenas formas e nada mais, as quais nós interpretávamos na ânsia de dar significado a alguma coisa, ainda que fosse a uma planta.
Como resposta ao nosso diálogo simbólico, esculpi um homem-árvore, cujos braços eram galhos e o pé, ramificações. Cabeça. Corpo. Raízes. Assim foi nossa primeira conversa.
Posteriormente veio a história do zíper. Enquanto você lacrava eu expunha. Os corpos fabricados por você tinham formas geométricas que aos poucos foram adquirindo forma humana, nos seios, na cintura e claro, nas clavículas. Mas não bastava serem humanos, eram herméticos. Por vezes beiravam a angústia, como aquela mulher que levava as mãos ao pescoço, que se tivesse um rosto gritaria. Meu corpos também transpareciam toda a dor, mas, diferentemente dos seus, eram abertos, deixavam um vácuo envolto por costelas. A exposição simbólica das nossas diferenças.
Nosso trabalho jamais acabaria, era aquilo de mais bonito e atento que já soubéramos, pois podíamos fazer o que existia e moldar o inexistente, na vaga idealização de quem necessita ver além.
Entender a relação que você tinha com o seu corpo foi fundamental para a compreensão das suas esculturas que permaneceram pela casa, que na verdade, não eram suas. Era você, na sua fragilidade exposta de quem não sabe usar de subterfúgios, desde sempre.
A sua memória é ruim demais pra que se lembre disso, mas nas aulas de modelagem não nos comunicávamos verbalmente, mas artisticamente. Era soberbo.
A escolha da argila porque é um produto da terra e o que advém dela pode se prolongar ao infinito. É um sentimento puro, não uma continuidade, é antes de mais nada o resultado da nossa inconstância. O que foi uma coluna vertebral ontem pode ser um zíper amanhã, e daí que surgiram suas mulheres lacradas. Seus corpos cerrados em si mesmos exprimiam dor o bastante pra que tivessem um rosto. Uma série de mulheres anônimas condicionadas a expressarem não expressando. Gostaria de poder conferir uma identidade pecualiar a cada uma delas, cada qual uma projeção do seu prisma.
A sua primeira escultura foi infantil, mas nunca óbvia. Uma face quase humana seguida por raízes grossas que afinavam em direção a cabeça e apareciam discretamente na fronte.
Passei a reparar nas árvores dando ênfase nas raízes, aquelas mesmas que garantiam um equilíbrio instável, sustentavam em conjunto ao mesmo tempo em que se sobrepunham confusamente umas as outras. O caos estava no princípio, na base. Ou talvez fossem apenas formas e nada mais, as quais nós interpretávamos na ânsia de dar significado a alguma coisa, ainda que fosse a uma planta.
Como resposta ao nosso diálogo simbólico, esculpi um homem-árvore, cujos braços eram galhos e o pé, ramificações. Cabeça. Corpo. Raízes. Assim foi nossa primeira conversa.
Posteriormente veio a história do zíper. Enquanto você lacrava eu expunha. Os corpos fabricados por você tinham formas geométricas que aos poucos foram adquirindo forma humana, nos seios, na cintura e claro, nas clavículas. Mas não bastava serem humanos, eram herméticos. Por vezes beiravam a angústia, como aquela mulher que levava as mãos ao pescoço, que se tivesse um rosto gritaria. Meu corpos também transpareciam toda a dor, mas, diferentemente dos seus, eram abertos, deixavam um vácuo envolto por costelas. A exposição simbólica das nossas diferenças.
Nosso trabalho jamais acabaria, era aquilo de mais bonito e atento que já soubéramos, pois podíamos fazer o que existia e moldar o inexistente, na vaga idealização de quem necessita ver além.
12 de janeiro de 2010
Círculo vicioso
Pra não dizer que contemplava o mar em uma atitude medidativa, prefiro dizer que apreciava a formação geológica. O que fazia com que as pedras se dispusessem daquela maneira, umas em cima de outras, como se alguém propositalmente tivesse as colocado lá daquela maneira? A resposta está no tempo. E no mar. Milhares de ondas se quebrando incessantemente no decorrer de milhares de anos. E ali estão as pedras, assim como as vejo agora. Há aquelas que vivem submersas e as que a olho nu, em suas formas sumptuosas, escondem pequenos crustáceos arredios e algas traiçoeiras.
Poderia ficar ali pra sempre. Melhor ainda se estivesse só. Porque somente alguém que intenciona a reclusão poderia procurar aquele lugar sozinho, mas havia ainda as famílias. A mulher que abria os braços para a câmera e para a posteridade numa atitude de ser livre. O mar como cenário. Os braços abertos. A brisa soprando. Havia ainda a adolescente visionária, que ambicionava suas poses insinuosas em alguma comunidade virtual. Como deve ser maravilhoso ter dezesseis anos e compartilhar da própria beleza. Não poderia esquecer também da menina treinada, que se posicionava tal qual suas irmã mais velha. Crianças adultas. Infância robótica. Já o irmão do meio, aquele gordo desajeitado que não sabia se comportar diante de uma câmera, esse ficava de fora. Escalava as pedras se sentindo o próprio Indiana Jones, e queria mais. Queria que alguém olhasse para ele, talvez por isso gritasse tanto, para demonstrar divertimento. E o pai ocupado em registar a beleza das filhas, de vez em quando dava uns gritos, apenas para precaver alguma tragédia.
Estava absorto no vazio. E todo dia caminhava até as rochas, procurando por algo, como que esperando por uma epifania. Mas ainda me restava o orgulho da recusa divina, posto em dúvida diante do mar. Nada encontro. Nada encontrarei. Soluções são breves e eu mais breve ainda. Por isso tenho que retornar para o almoço. Logo vai chover.
A cabeça vazia. Os pés apressados. Subo as escadas do prédio, não tenho paciência para elevador e odeio ar condicionado, essa coisa gélida que criaram afim de propiciar o conforto, essa merda artificial que me lembra haver um mundo lá fora. Ar condicionado é o sopro da vida ausente. E já posso sentir o cheiro da comida. O bife ressoa e eu sou carnívoro, meus caninos são mais pontudos que a média e a espécie incutiu e mim um desejo animal pelo animal. Não gosto de vegetarianos. O bife. O meu suor e de repente a minha epifania. Me deparo com uma bunda grande, recoberta por uma sunga vermelha que teimava em adentrar nas intimidades daquele ser miserável que estagnou na minha frente. Nádegas é eufemismo. Havia areia naquela bunda mal amada, bunda repulsiva que ninguém quer pra si. E uma mescla de tons. A ausência dos pêlos que recobriam o corpo. As veias expostas e a pele corroída. Uma queimadura. Uma queimadura gigante que o percorria até o pé, formando um mapa. Que asco me percorreu o corpo.
" Com licença, senhor". E me desvio, num desviar esguio, os olhos voltados para o chão como quem não quer ver.
E subitamente (e paradoxalmente) a tua imagem me percorreu á cabeça. Mas você não era você. Havia uma queimadura na sua face, acompanhada de um sorriso ingênuo.
E você, tão cheia de vida, seria capaz de amar a vida sob qualquer circunstância?
O bife ainda me espera, mas já não tem o mesmo gosto de outrora. E o tempo lá fora segue. Com as ondas desgastando as rochas, fazendo delas fragmento.
Será que o tempo vai desenvolver sua ação com a mesma violência das ondas?
Em breve, eu sei, seu colo já não será mais tão tezo. Haverá um abismo entre os seus olhos e o rosto, e não será como naquele dia que você achou que seu olhar tinha caído de tanto chorar suas futilidades. Não será de tristeza. Será apenas. E as suas coxas, delineadas com perfeição, ficarão sem contornos, e ausentes de forma, já não serão mais coxas. Elas coxearão. A espécie vai se apossar do seu corpo, e ainda assim, a vida ingrata que sai das suas entranhas não te pertencerá. E o óvulo onipotente em sua inércia deixará de existir, os abortos espontâneos da vida incompleta cessarão. Seu útero apodrecerá.
Talvez, quando vier a se olhar no espelho, se depare com uma estranha que se busca. Ou Poderia analisar minuciosamente cada traço desenhado pelo tempo, cada ruga, cada história e cada feição que já vivenciou. E não saberá quem é pra si mesma, mas ainda assim haverá uma vida lá fora que vai te julgar. Mais do que uma vida, uma história, uma pesado fardo que desconsidera qualquer achismo. Mas como consolo você ainda vai se lembrar das ondas e no círculo vicioso que as acomete em algo muito maior: o mar.
Poderia ficar ali pra sempre. Melhor ainda se estivesse só. Porque somente alguém que intenciona a reclusão poderia procurar aquele lugar sozinho, mas havia ainda as famílias. A mulher que abria os braços para a câmera e para a posteridade numa atitude de ser livre. O mar como cenário. Os braços abertos. A brisa soprando. Havia ainda a adolescente visionária, que ambicionava suas poses insinuosas em alguma comunidade virtual. Como deve ser maravilhoso ter dezesseis anos e compartilhar da própria beleza. Não poderia esquecer também da menina treinada, que se posicionava tal qual suas irmã mais velha. Crianças adultas. Infância robótica. Já o irmão do meio, aquele gordo desajeitado que não sabia se comportar diante de uma câmera, esse ficava de fora. Escalava as pedras se sentindo o próprio Indiana Jones, e queria mais. Queria que alguém olhasse para ele, talvez por isso gritasse tanto, para demonstrar divertimento. E o pai ocupado em registar a beleza das filhas, de vez em quando dava uns gritos, apenas para precaver alguma tragédia.
Estava absorto no vazio. E todo dia caminhava até as rochas, procurando por algo, como que esperando por uma epifania. Mas ainda me restava o orgulho da recusa divina, posto em dúvida diante do mar. Nada encontro. Nada encontrarei. Soluções são breves e eu mais breve ainda. Por isso tenho que retornar para o almoço. Logo vai chover.
A cabeça vazia. Os pés apressados. Subo as escadas do prédio, não tenho paciência para elevador e odeio ar condicionado, essa coisa gélida que criaram afim de propiciar o conforto, essa merda artificial que me lembra haver um mundo lá fora. Ar condicionado é o sopro da vida ausente. E já posso sentir o cheiro da comida. O bife ressoa e eu sou carnívoro, meus caninos são mais pontudos que a média e a espécie incutiu e mim um desejo animal pelo animal. Não gosto de vegetarianos. O bife. O meu suor e de repente a minha epifania. Me deparo com uma bunda grande, recoberta por uma sunga vermelha que teimava em adentrar nas intimidades daquele ser miserável que estagnou na minha frente. Nádegas é eufemismo. Havia areia naquela bunda mal amada, bunda repulsiva que ninguém quer pra si. E uma mescla de tons. A ausência dos pêlos que recobriam o corpo. As veias expostas e a pele corroída. Uma queimadura. Uma queimadura gigante que o percorria até o pé, formando um mapa. Que asco me percorreu o corpo.
" Com licença, senhor". E me desvio, num desviar esguio, os olhos voltados para o chão como quem não quer ver.
E subitamente (e paradoxalmente) a tua imagem me percorreu á cabeça. Mas você não era você. Havia uma queimadura na sua face, acompanhada de um sorriso ingênuo.
E você, tão cheia de vida, seria capaz de amar a vida sob qualquer circunstância?
O bife ainda me espera, mas já não tem o mesmo gosto de outrora. E o tempo lá fora segue. Com as ondas desgastando as rochas, fazendo delas fragmento.
Será que o tempo vai desenvolver sua ação com a mesma violência das ondas?
Em breve, eu sei, seu colo já não será mais tão tezo. Haverá um abismo entre os seus olhos e o rosto, e não será como naquele dia que você achou que seu olhar tinha caído de tanto chorar suas futilidades. Não será de tristeza. Será apenas. E as suas coxas, delineadas com perfeição, ficarão sem contornos, e ausentes de forma, já não serão mais coxas. Elas coxearão. A espécie vai se apossar do seu corpo, e ainda assim, a vida ingrata que sai das suas entranhas não te pertencerá. E o óvulo onipotente em sua inércia deixará de existir, os abortos espontâneos da vida incompleta cessarão. Seu útero apodrecerá.
Talvez, quando vier a se olhar no espelho, se depare com uma estranha que se busca. Ou Poderia analisar minuciosamente cada traço desenhado pelo tempo, cada ruga, cada história e cada feição que já vivenciou. E não saberá quem é pra si mesma, mas ainda assim haverá uma vida lá fora que vai te julgar. Mais do que uma vida, uma história, uma pesado fardo que desconsidera qualquer achismo. Mas como consolo você ainda vai se lembrar das ondas e no círculo vicioso que as acomete em algo muito maior: o mar.
3 de janeiro de 2010
Revolta do pente
Um episódio no mínimo, cênico.
Era dia oito de dezembro, na praça Tiradentes, local movimentado e com grande número de lojas comerciais de propriedade de árabes. Um indivíduo dirigindo-se a uma das lojas compra um pente e pede uma nota fiscal. O comerciante se recusa, pela quantia exígua e também por não ser obrigado. O freguês então começou a destratá-lo, começam a discutir e acabam por se atracar em violenta luta corporal, vindo o exaltado consumidor, a fraturar uma perna. A partir daí, a insensatez tomou conta da cidade. Transeuntes que passavam, incitados pêlos gritos do cidadão e indignados com o fato, começaram a apedrejar a loja, e mesmo com o rápido abaixar das portas pelo comerciante, entre paus e pedras a turba que imediatamente se formou, arrancou-as e invadiu o estabelecimento destruindo-o e saqueando. A família, que estava presente nos balcões, fugiu para os fundos da loja, e procurou refugio nas casas vizinhas. Lá fora o grupo logo foi engrossado por dezenas de outros indivíduos e o rastilho de violência pegou fogo. Foram dois dias de quebra-quebra, arruaça e deboche às forças da ordem. Os insultos e apedrejamentos que visavam principalmente a comunidade síria-libanesa e suas lojas. A Polícia militar e polícia civil, auxiliados por bombeiros não foram capazes de controlar os 2.000 insurgentes. Finalmente foi preciso a intervenção do exército, com tanques e soldados armados para acabar com o levante civil que teve coloridos nacionalistas. Houve feridos, tiros, saques e destruição. Ao todo 181 prédios foram danificados, dentre lojas, bares, órgãos públicos, bancas de revista e até mesmo carrinhos de pipoca.
Era dia oito de dezembro, na praça Tiradentes, local movimentado e com grande número de lojas comerciais de propriedade de árabes. Um indivíduo dirigindo-se a uma das lojas compra um pente e pede uma nota fiscal. O comerciante se recusa, pela quantia exígua e também por não ser obrigado. O freguês então começou a destratá-lo, começam a discutir e acabam por se atracar em violenta luta corporal, vindo o exaltado consumidor, a fraturar uma perna. A partir daí, a insensatez tomou conta da cidade. Transeuntes que passavam, incitados pêlos gritos do cidadão e indignados com o fato, começaram a apedrejar a loja, e mesmo com o rápido abaixar das portas pelo comerciante, entre paus e pedras a turba que imediatamente se formou, arrancou-as e invadiu o estabelecimento destruindo-o e saqueando. A família, que estava presente nos balcões, fugiu para os fundos da loja, e procurou refugio nas casas vizinhas. Lá fora o grupo logo foi engrossado por dezenas de outros indivíduos e o rastilho de violência pegou fogo. Foram dois dias de quebra-quebra, arruaça e deboche às forças da ordem. Os insultos e apedrejamentos que visavam principalmente a comunidade síria-libanesa e suas lojas. A Polícia militar e polícia civil, auxiliados por bombeiros não foram capazes de controlar os 2.000 insurgentes. Finalmente foi preciso a intervenção do exército, com tanques e soldados armados para acabar com o levante civil que teve coloridos nacionalistas. Houve feridos, tiros, saques e destruição. Ao todo 181 prédios foram danificados, dentre lojas, bares, órgãos públicos, bancas de revista e até mesmo carrinhos de pipoca.
Silêncio Perpétuo
Ele a julgava hermética, como se jamais pudesse adentrar em seus pensamentos. Ela por sua vez, sabia do efeito que provocava e usava a seu favor. O silêncio provocava o mistério, mas esse era seu estado natural, desprovido de qualquer além. Tudo começava e terminava em seu olhar que não queria dizer. Todo o resto dependia do julgamento alheio. Uma folha em branco permite inúmeras possibilidades. Afagos intermináveis tornavam-na impassível, ele a queria pra si, ao passo que ela só queria a si mesma. Lera certa vez que simplicidade só se conquista com o tempo. Clarice bem sabia o que dizia. Silêncio. Observa. O mundo é mesmo um espetáculo. Nenhum pensamento. Sente. Apressa o passo. Cansa. Poderia para ali mesmo, no meio da praça e ser o espectro dos esquizofrênicos. Os outros falavam as trivialidades da vida e era tão bonito. Mas dessa simplicidade não bebia. Na sua ótica até o simples pareceria ser complexo. Comentou com ele que era uma ilusão julgar mistério nas pessoas, porque alguém que o possuisse seria sempre previsível no pouco que deixaria a revelar e aqueles que eram facilmente codificados permaneceriam imutáveis, com o diferencial de serem imprevisíveis em suas previsibilidades. Seu amor era altruísta em detrimento próprio. Desejou se descobrir pela entrega e assim o fez. Dissimulada que era, calculou cada passo e parecia saber conduzir as coisas, só não sabia até quando. Silenciar tornara-se imperdoável. Pensava consigo que poderia viver o outro pelo simples prazer de viver, sem esperar nada em troca. Talvez fosse a própria simplicidade que lhe fugisse ao controle. Ele não esperava nada dela. Era minucioso como sempre desejara que alguém o fosse, para não cair em abismos profundos cavados por intensidades efêmeras. E ainda por cima avistava as angústias que compunham o orgulho próprio. Por vezes se afastava propositalmente. Como era fascinante a idéia de que ninguém jamais a teria por inteiro. Sórdida. Para se livrar da idéia de que poderia viver um amor singelo por si só, travestiu seu romantismo em satisfação, o contento de quem tudo vê e conduz. Mentira. O que desejava era ser por inteiro e ir a fundo, mas ela mesma lhe parecia tão abismal que ser por inteiro era aterrorizante. Não era tímida, jamais o fora. Sua única vergonha era a de ser a si mesma. Poderia se revelar por um simples olhar, mas, ao contrário, sua tática consistia em olhar para os lados, desatenta. Se revelava um fato ele ser mais sentimental que ela, que, crua como era, poderia fixar seus olhos nele por horas e esperar algo, só não o fazia por conveniência, não gostava de ser observada e não desejava o mesmo para os outros, apesar da vontade que lhe consumia. Tão dúbia. Esperava dele, que nada queria em troca. Se ele tentasse o mesmo contra ela, talvez, por uma questão de necessidade se igualasse aos outros, renunciaria ao seu silêncio e falaria sobre as coisas mais redundantes da vida. Poderia usar do seu intelecto e adentrar em assuntos supostamentes complexos de maneira extremamente supérflua, visando garantir atenção. Entretanto, mais do que atenção ela tinha zelo, uma proteção a qual não sabia compensar que não fosse silenciando e assumindo aquilo que era uma parte intrínseca ao seu ser : Caos. Silêncio Perpétuo.
Doces deletérios
Não, não me coloque na posição vítima, que eu também não tenho pena de ninguém.
Minha dor não vai ser superexposta e eu só queria que você soubesse que depois dessa experiência eu nunca mais conseguirei ser aquilo que era. Adormecemos sem interiorizar nada, mas minuciosamente mudamos, as rugas e os cabelos brancos, os hormônios e a minha moral decadente, porque tudo que temia quando te conheci era acabar como eles, mas já posso me ver no espelho como um. Não há uma essência original, apenas uma substância volátil.
E finalmente vou me dedicar a escrever. Não quero publicar nada, não tenho segundas intenções. Quero as coisas por elas mesmas e a pureza que reside em tão pouco. Você não, me sugava até o âmago da alma, me queria com uma intensidade que só poderia existir nesse teu idealismo que é vício também. É o círculo vicioso do que poderia ser, e são inúmeras as possibilidades. Me arrisco a dizer que não encontrando a turbulência que você inconscientemente almejava no amor e em toda a sua obviedade, foi buscar nas causas dolorosas dessa vida qualquer coisa que te completasse, qualquer coisa mais forte do que as pequenas doses matinais de fluoxetina e café sem adoçante, pra começar bem o dia. Dessa distância a qual me proponho tomar, posso enxergar sem subterfúgios. E você é tão previsível. Talvez julgasse ser diferente pela intensidade contida, pelos conflitos que só lhe pertenciam, por esse seu niilismo forçado. O sofrimento, tanto quanto o amor, é universal. O seu não é exclusividade, o fato de ser advento de uma busca, não o torna mais elevado, portanto engula essa sua racionalidade e a arrogância que dela é intrínseca e pare de avaliar a dor alheia, como se não fosse passível de sofrer problemas tão vulgares, tão humanos. Essa sua visão ampliada das coisas é um deletério que alimenta seu ego.
Quando te conheci, havia um uma melancolia pura, uma essência intocável. Tudo simbolizava algo, remetia a uma dor que lhe era recôndita. O professor gay que cheirava a sexo. O relógio quebrado do seu avô e aquela casa perto da reitoria que te deixava absorta. Pequenas coisas que ultrapassam o humano e que só a sua sensibilidade tão apurada poderia alcançar. Essa era a sua pureza, mas não uma pureza ingênua, que você bem sabia ser esse o seu diferencial, assim como a liberdade consciente que procurava na vida.
A nossa inserção no mundo nos privou de nós mesmos. Somos como eles, porque nesse mundo a dor não tem valor. Passa por cima, toma fluoxetina, aumenta a dose. E acende um cigarro, que me desprender dos vícios é pedir demais.
Havia uma ânsia por ser que nos levou ao auge, havia uma causa. Não de cunho ideológico, que nós odiávamos aqueles comunas saudosistas, nem de pertencimento, que repudíavamos os ismos. Era uma causa inerente a vida que pulsava viva e ao ódio que lhe era intrínseco.
Não sei dizer quando nos perdemos, mas agora que a realidade está internalizada em nós e só resta viver, quero te dizer que quando afirma os seus traços e se visualiza em cada coisa que escolhe para si, na repetição de bordô, verde escuro, marrom e do branco que atenua, se torna mais bonita, e não há eufemismos que te caracterizem. É dúbia, evasiva e portanto absoluta. Ponto. Só não deixe que a dor te consuma.
E quando chegar a hora, esteja comigo, meu bem.
Minha dor não vai ser superexposta e eu só queria que você soubesse que depois dessa experiência eu nunca mais conseguirei ser aquilo que era. Adormecemos sem interiorizar nada, mas minuciosamente mudamos, as rugas e os cabelos brancos, os hormônios e a minha moral decadente, porque tudo que temia quando te conheci era acabar como eles, mas já posso me ver no espelho como um. Não há uma essência original, apenas uma substância volátil.
E finalmente vou me dedicar a escrever. Não quero publicar nada, não tenho segundas intenções. Quero as coisas por elas mesmas e a pureza que reside em tão pouco. Você não, me sugava até o âmago da alma, me queria com uma intensidade que só poderia existir nesse teu idealismo que é vício também. É o círculo vicioso do que poderia ser, e são inúmeras as possibilidades. Me arrisco a dizer que não encontrando a turbulência que você inconscientemente almejava no amor e em toda a sua obviedade, foi buscar nas causas dolorosas dessa vida qualquer coisa que te completasse, qualquer coisa mais forte do que as pequenas doses matinais de fluoxetina e café sem adoçante, pra começar bem o dia. Dessa distância a qual me proponho tomar, posso enxergar sem subterfúgios. E você é tão previsível. Talvez julgasse ser diferente pela intensidade contida, pelos conflitos que só lhe pertenciam, por esse seu niilismo forçado. O sofrimento, tanto quanto o amor, é universal. O seu não é exclusividade, o fato de ser advento de uma busca, não o torna mais elevado, portanto engula essa sua racionalidade e a arrogância que dela é intrínseca e pare de avaliar a dor alheia, como se não fosse passível de sofrer problemas tão vulgares, tão humanos. Essa sua visão ampliada das coisas é um deletério que alimenta seu ego.
Quando te conheci, havia um uma melancolia pura, uma essência intocável. Tudo simbolizava algo, remetia a uma dor que lhe era recôndita. O professor gay que cheirava a sexo. O relógio quebrado do seu avô e aquela casa perto da reitoria que te deixava absorta. Pequenas coisas que ultrapassam o humano e que só a sua sensibilidade tão apurada poderia alcançar. Essa era a sua pureza, mas não uma pureza ingênua, que você bem sabia ser esse o seu diferencial, assim como a liberdade consciente que procurava na vida.
A nossa inserção no mundo nos privou de nós mesmos. Somos como eles, porque nesse mundo a dor não tem valor. Passa por cima, toma fluoxetina, aumenta a dose. E acende um cigarro, que me desprender dos vícios é pedir demais.
Havia uma ânsia por ser que nos levou ao auge, havia uma causa. Não de cunho ideológico, que nós odiávamos aqueles comunas saudosistas, nem de pertencimento, que repudíavamos os ismos. Era uma causa inerente a vida que pulsava viva e ao ódio que lhe era intrínseco.
Não sei dizer quando nos perdemos, mas agora que a realidade está internalizada em nós e só resta viver, quero te dizer que quando afirma os seus traços e se visualiza em cada coisa que escolhe para si, na repetição de bordô, verde escuro, marrom e do branco que atenua, se torna mais bonita, e não há eufemismos que te caracterizem. É dúbia, evasiva e portanto absoluta. Ponto. Só não deixe que a dor te consuma.
E quando chegar a hora, esteja comigo, meu bem.
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