3 de janeiro de 2010

Silêncio Perpétuo

Ele a julgava hermética, como se jamais pudesse adentrar em seus pensamentos. Ela por sua vez, sabia do efeito que provocava e usava a seu favor. O silêncio provocava o mistério, mas esse era seu estado natural, desprovido de qualquer além. Tudo começava e terminava em seu olhar que não queria dizer. Todo o resto dependia do julgamento alheio. Uma folha em branco permite inúmeras possibilidades. Afagos intermináveis tornavam-na impassível, ele a queria pra si, ao passo que ela só queria a si mesma. Lera certa vez que simplicidade só se conquista com o tempo. Clarice bem sabia o que dizia. Silêncio. Observa. O mundo é mesmo um espetáculo. Nenhum pensamento. Sente. Apressa o passo. Cansa. Poderia para ali mesmo, no meio da praça e ser o espectro dos esquizofrênicos. Os outros falavam as trivialidades da vida e era tão bonito. Mas dessa simplicidade não bebia. Na sua ótica até o simples pareceria ser complexo. Comentou com ele que era uma ilusão julgar mistério nas pessoas, porque alguém que o possuisse seria sempre previsível no pouco que deixaria a revelar e aqueles que eram facilmente codificados permaneceriam imutáveis, com o diferencial de serem imprevisíveis em suas previsibilidades. Seu amor era altruísta em detrimento próprio. Desejou se descobrir pela entrega e assim o fez. Dissimulada que era, calculou cada passo e parecia saber conduzir as coisas, só não sabia até quando. Silenciar tornara-se imperdoável. Pensava consigo que poderia viver o outro pelo simples prazer de viver, sem esperar nada em troca. Talvez fosse a própria simplicidade que lhe fugisse ao controle. Ele não esperava nada dela. Era minucioso como sempre desejara que alguém o fosse, para não cair em abismos profundos cavados por intensidades efêmeras. E ainda por cima avistava as angústias que compunham o orgulho próprio. Por vezes se afastava propositalmente. Como era fascinante a idéia de que ninguém jamais a teria por inteiro. Sórdida. Para se livrar da idéia de que poderia viver um amor singelo por si só, travestiu seu romantismo em satisfação, o contento de quem tudo vê e conduz. Mentira. O que desejava era ser por inteiro e ir a fundo, mas ela mesma lhe parecia tão abismal que ser por inteiro era aterrorizante. Não era tímida, jamais o fora. Sua única vergonha era a de ser a si mesma. Poderia se revelar por um simples olhar, mas, ao contrário, sua tática consistia em olhar para os lados, desatenta. Se revelava um fato ele ser mais sentimental que ela, que, crua como era, poderia fixar seus olhos nele por horas e esperar algo, só não o fazia por conveniência, não gostava de ser observada e não desejava o mesmo para os outros, apesar da vontade que lhe consumia. Tão dúbia. Esperava dele, que nada queria em troca. Se ele tentasse o mesmo contra ela, talvez, por uma questão de necessidade se igualasse aos outros, renunciaria ao seu silêncio e falaria sobre as coisas mais redundantes da vida. Poderia usar do seu intelecto e adentrar em assuntos supostamentes complexos de maneira extremamente supérflua, visando garantir atenção. Entretanto, mais do que atenção ela tinha zelo, uma proteção a qual não sabia compensar que não fosse silenciando e assumindo aquilo que era uma parte intrínseca ao seu ser : Caos. Silêncio Perpétuo.

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