Não, não me coloque na posição vítima, que eu também não tenho pena de ninguém.
Minha dor não vai ser superexposta e eu só queria que você soubesse que depois dessa experiência eu nunca mais conseguirei ser aquilo que era. Adormecemos sem interiorizar nada, mas minuciosamente mudamos, as rugas e os cabelos brancos, os hormônios e a minha moral decadente, porque tudo que temia quando te conheci era acabar como eles, mas já posso me ver no espelho como um. Não há uma essência original, apenas uma substância volátil.
E finalmente vou me dedicar a escrever. Não quero publicar nada, não tenho segundas intenções. Quero as coisas por elas mesmas e a pureza que reside em tão pouco. Você não, me sugava até o âmago da alma, me queria com uma intensidade que só poderia existir nesse teu idealismo que é vício também. É o círculo vicioso do que poderia ser, e são inúmeras as possibilidades. Me arrisco a dizer que não encontrando a turbulência que você inconscientemente almejava no amor e em toda a sua obviedade, foi buscar nas causas dolorosas dessa vida qualquer coisa que te completasse, qualquer coisa mais forte do que as pequenas doses matinais de fluoxetina e café sem adoçante, pra começar bem o dia. Dessa distância a qual me proponho tomar, posso enxergar sem subterfúgios. E você é tão previsível. Talvez julgasse ser diferente pela intensidade contida, pelos conflitos que só lhe pertenciam, por esse seu niilismo forçado. O sofrimento, tanto quanto o amor, é universal. O seu não é exclusividade, o fato de ser advento de uma busca, não o torna mais elevado, portanto engula essa sua racionalidade e a arrogância que dela é intrínseca e pare de avaliar a dor alheia, como se não fosse passível de sofrer problemas tão vulgares, tão humanos. Essa sua visão ampliada das coisas é um deletério que alimenta seu ego.
Quando te conheci, havia um uma melancolia pura, uma essência intocável. Tudo simbolizava algo, remetia a uma dor que lhe era recôndita. O professor gay que cheirava a sexo. O relógio quebrado do seu avô e aquela casa perto da reitoria que te deixava absorta. Pequenas coisas que ultrapassam o humano e que só a sua sensibilidade tão apurada poderia alcançar. Essa era a sua pureza, mas não uma pureza ingênua, que você bem sabia ser esse o seu diferencial, assim como a liberdade consciente que procurava na vida.
A nossa inserção no mundo nos privou de nós mesmos. Somos como eles, porque nesse mundo a dor não tem valor. Passa por cima, toma fluoxetina, aumenta a dose. E acende um cigarro, que me desprender dos vícios é pedir demais.
Havia uma ânsia por ser que nos levou ao auge, havia uma causa. Não de cunho ideológico, que nós odiávamos aqueles comunas saudosistas, nem de pertencimento, que repudíavamos os ismos. Era uma causa inerente a vida que pulsava viva e ao ódio que lhe era intrínseco.
Não sei dizer quando nos perdemos, mas agora que a realidade está internalizada em nós e só resta viver, quero te dizer que quando afirma os seus traços e se visualiza em cada coisa que escolhe para si, na repetição de bordô, verde escuro, marrom e do branco que atenua, se torna mais bonita, e não há eufemismos que te caracterizem. É dúbia, evasiva e portanto absoluta. Ponto. Só não deixe que a dor te consuma.
E quando chegar a hora, esteja comigo, meu bem.
3 de janeiro de 2010
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