Agora entendo porque você apreciava tanto suas clavículas. Elas emergem voluntariamente da fina superfície epitelial que as encobre, são fruto de uma condição. Sim, porque as minhas clavículas não se insinuam como as suas, assim como a minha coluna vertebral, ela é omissa e não aparenta uma sequência gigante de ervilhas que emanam das costas. Talvez esse apreço pelos ossos se dê pelo fato deles emergirem de dentro, independentes á sua vontade. Devia ser por isso que você seguia o percurso das veias a partir dos meus pulsos com a ponta dos dedos, e apertava levemente aquelas que brotavam do pé nos dias quentes.
Entender a relação que você tinha com o seu corpo foi fundamental para a compreensão das suas esculturas que permaneceram pela casa, que na verdade, não eram suas. Era você, na sua fragilidade exposta de quem não sabe usar de subterfúgios, desde sempre.
A sua memória é ruim demais pra que se lembre disso, mas nas aulas de modelagem não nos comunicávamos verbalmente, mas artisticamente. Era soberbo.
A escolha da argila porque é um produto da terra e o que advém dela pode se prolongar ao infinito. É um sentimento puro, não uma continuidade, é antes de mais nada o resultado da nossa inconstância. O que foi uma coluna vertebral ontem pode ser um zíper amanhã, e daí que surgiram suas mulheres lacradas. Seus corpos cerrados em si mesmos exprimiam dor o bastante pra que tivessem um rosto. Uma série de mulheres anônimas condicionadas a expressarem não expressando. Gostaria de poder conferir uma identidade pecualiar a cada uma delas, cada qual uma projeção do seu prisma.
A sua primeira escultura foi infantil, mas nunca óbvia. Uma face quase humana seguida por raízes grossas que afinavam em direção a cabeça e apareciam discretamente na fronte.
Passei a reparar nas árvores dando ênfase nas raízes, aquelas mesmas que garantiam um equilíbrio instável, sustentavam em conjunto ao mesmo tempo em que se sobrepunham confusamente umas as outras. O caos estava no princípio, na base. Ou talvez fossem apenas formas e nada mais, as quais nós interpretávamos na ânsia de dar significado a alguma coisa, ainda que fosse a uma planta.
Como resposta ao nosso diálogo simbólico, esculpi um homem-árvore, cujos braços eram galhos e o pé, ramificações. Cabeça. Corpo. Raízes. Assim foi nossa primeira conversa.
Posteriormente veio a história do zíper. Enquanto você lacrava eu expunha. Os corpos fabricados por você tinham formas geométricas que aos poucos foram adquirindo forma humana, nos seios, na cintura e claro, nas clavículas. Mas não bastava serem humanos, eram herméticos. Por vezes beiravam a angústia, como aquela mulher que levava as mãos ao pescoço, que se tivesse um rosto gritaria. Meu corpos também transpareciam toda a dor, mas, diferentemente dos seus, eram abertos, deixavam um vácuo envolto por costelas. A exposição simbólica das nossas diferenças.
Nosso trabalho jamais acabaria, era aquilo de mais bonito e atento que já soubéramos, pois podíamos fazer o que existia e moldar o inexistente, na vaga idealização de quem necessita ver além.
15 de janeiro de 2010
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