26 de janeiro de 2010

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A cidade é diferente sob sua ótica, você vive no centro e da tua janela tudo parece óbvio demais. O mesmo Largo da Ordem, intacto e decadente, com as mesmas pessoas de sempre, as quais um dia você lembrará como vultos de uma época despedaçada. A metrópole província com todos os seus encantos já conhecidos em nada mais te atrai, de repente ela se tornou pequena. E você foge, mas fugindo nada encontrará, falta a si mesma e si mesma é inatingível. Haverá ausência aqui. E em qualquer lugar.
Preste atenção nesses foliões anônimos encobertos pelo cinza do céu e nem por isso menos felizes, talvez tudo aquilo seja o que conheceram de mais intenso em vida, a prova irrefutável de quem espera a semana toda para encontrar a felicidade no domingo, o dia da semana que não acaba para eles que festejam o esplendor eterno, e para nós, espectadores entediados da futilidade carnavalesca, ainda que complacentes com ela.
Do meu quarto você confessa o que te pesa. Olhemos uma última vez pela janela, que agora nos mostra o mundo sob outro prisma.
Você me confessa a vida, eu me tranco no banheiro. Chorei por descobrir que amor é sacrifício. Não pela dor imediata e pela culpa irremediável que dele provém, mas por nunca ter renunciado em prol de algo maior que compensasse as perdas e que com elas alimentasse a si mesmo. Talvez não tivesse amor o bastante, ou ainda não tivesse compreendido que sacrifício é uma consequência do mesmo. Há tempos você sofre com espinhas que insistem em explodir da sua face, mas aprendeu que minancora em excesso queima e que só o tempo resolve. Agora é diferente. De dentro de você emerge muito mais do que acne, emerge vida. Se você renunciasse, renunciaria a si mesma. E renunciou. Dois meses, uma vida bizarra e espontânea se movendo em você, te sentindo, partilhando e consumindo, colocando a prova a fragilidade do teu corpo, cerrado em si mesmo, gritando por si e por mais um, que agora ocupa teu espaço. O gênesis diz que a dor do parto foi castigo divino, a pena que vai cumprir pelos deletérios de teus antescedentes será a do teu corpo aprisionado pela espécie, pagará pelos crimes da humanidade e o legado ficará aos critérios dela mesma. Todas as mudanças serão para abrigar o inquilino, superprotegido dentro um mundo chamado placenta, o refúgio por nós concedido á ele, ou a á ela, que um dia talvez descubra ares de tabaco, ainda que contra o julgamento intransigente do pai que condenou a si mesmo. Tomara que fume por gosto, não por vício.Você ficará gorda, meu bem, mas essa é uma realidade irremediável da vida, e tudo que concebe como si mesma agora já não existirá senão como uma vaga lembrança. A efemeridade de quem um dia foi atriz de peças desprovidas de qualquer propósito, a nostalgia de quem desenhava nus.
Amor não completa nem preenche, alimenta. O vir a ser vai beber da sua morbidez amorosa. Ao sair do hospital, eu sei, haverá uma fotografia para a eternidade. Você, com um vestido branco que faz teu corpo flutuar me abraçaria em sua fragilidade de quem concebe a vida, eu seguraria ela ( ou ele ) em meus braços e assumiria ali mesmo uma nova identidade, a qual teria de reinventar uma assinatura diariamente.
Mas antes, deite aqui nesse divã, quero memorizar pra sempre essa feição que assumiu agora. Pálida, não sabe o que vai te suceder, apenas está cônscia de que você mesma, na maneira como se encontra agora, transcederá. E quando o sol finalmente raiar, tudo ficará positivamente mórbido [Júpiter maçã ]

3 comentários:

  1. Junção de escritos que não deram certo.

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  2. E mais uma vez me pego lendo seu texto mais de uma vez.
    Mais uma vez é a sensação, e não o entendimento, que toma conta de mim.

    "Chorei por descobrir que amor é sacrifício. "

    Gostei, Ana.

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